Entrevista
com Dexter
Entrevista retirada da
Revista ShowBizz
Vocês acabaram de fazer
uma turnê triunfal pela Europa. Onde foi mais
emocionante tocar?
Dexter: Adoramos
a Europa Oriental. Polônia, Praga (na República
Tcheca), nesses lugares a platéia realmente
alucina. Só perde para o pessoal da América do
Sul. Nunca vi nada ao que a molecada faz
aí (o Offspring fez
grandes shows no Brasil em 1997). Sério, não
estou dizendo isso porque a entrevista é para
uma revista brasileira. Nós realmente adoramos
tocar para um público ensandecido e vamos voltar
este ano (99).
Quando?
Dexter:
Acho que em setembro, por aí. Nós vamos parar a
excursão agora e recomeçamos depois. Primeiro
mais shows pelos Estados Unidos, depois
Austrália. Com certeza baixamos aí de novo.
Como está a turnê
pelos Estados Unidos?
Dexter:
Fizemos agora (fim de março) dois shows
com o Everlast (rapper branco, ex-House Of Pain).
Não, ele não cantou com a gente "Pretty
Fly (For a White Guy)". A gente nem se falou
(risos). Mas estamos viajando direto com uma
banda da Austrália, The Living End.
Como foi tocar
"Pretty Fly(For a White Guy)" ao vivo
com Vanilla Ice, num show em L.A.?
Dexter:
Muito divertido. Vanilla é um cara
tranqüilo, não vestiu a carapuça da letra e
também não se leva a sério - pelo menos não
leva a sério seu passado. Topou na hora nosso
convite. Entrou cantando "ice, ice
baby" (refrão de seu único hit) bem no
meio da música. O novo CD dele é bem diferente,
sombrio até. Você não vai acreditar quando
ouvir.
O que você acha de
"Pretty Fly" ser a música mais
pirateada da internet?
Dexter:
Como você sabe disso?
Saiu na (revista
americana) Rolling Stone.
Dexter:
Não sei como é possível medir esse tipo
de dado. Mas é legal.
Você não acha que isso
pode estar prejudicando as vendas dos discos do
Offspring?
Dexter:
Pode até estar, mas me sinto feliz porque as
pessoas estão interessadas na nossa música. Ah,
quer saber? Eu acho ótimo. Já vendemos muito,
mais do que esperávamos, e não seria eu quem
iria exercitar a ganância nesse negócio.
Você disse, na
época de Ixnay on The Hombre (1997), que o
Offspring preferia não aparecer muito na TV,
recusando convites para não se expor muito.
Você acha que existe algo como "sucesso em
excesso"? Que nível seria esse?
Dexter:
(Risos) Aquele em que estamos agora. Já
vendemos discos demais. Aliás, eu gostaria de
fazer um apelo: por favor, não comprem mais
nossos discos. Vamos parar com isso já! Não
queremos mais vender. Quem comprou há pouco
tempo ainda pode trocar...(risos)
Sério. Vocês estão
ficando cada vez mais conhecidos...
Dexter:
Sim, estamos aparecendo muito mais na
televisão, até num filme estrelamos (Idle
Hands). Participamos de alguns talk shows, vimos
que as coisas podem ser feitas sem que a gente
perca o controle e pague mico... Fazer sucesso
não tira pedaço de ninguém. Tenho certeza que
a maioria das bandas gostaria de estar onde
estamos. Difícil é tocar para trinta pessoas
durante anos e anos, como nós fizemos.
Vocês apareceram em
programas trash, como os de Jerry Springer (O
Ratinho de lá) e Ricki Lake (atriz gordinha que
comanda um show de baixarias), que influenciaram
as letras de Americana?
Dexter:
Ricki nos convidou para seu programa.
E vocês toparam?
Dexter:
Não. Mas eu acho que aceitaria ir no Jerry
Springer. É um programa detestável, só que eu
indesculpavelmente assisto de vez em quando.
Poderia ser divertido. Aliás, está passando
agora, a TV aqui está ligada sem som.
Em 1994, o Offspring
vendeu milhões e tocou pelo mundo inteiro sem
jamais mencionar as tais "Pressões do
sucesso", conflitos de consciência ou
culpa. Não foi assim nem com o Nirvana nem com o
Pearl Jam...
Dexter: Ah,
mas você não pode nos comparar com eles (sem
ironia). Esses caras são mitos. Nós podemos ter
vendido todos esses milhões, mas o que foi
consumido foi apenas nosso disco, nossa música.
Nesses casos e em outros semelhantes, a imagem
dos caras, a personalidade deles, tudo foi
engolido e vendido. Não foi o mesmo processo,
para nós foi muito mais fácil. Voltamos para
casa e fizemos Inxay On The Hombre...
Quando vocês estavam
gravando Americana, com canções de apelo
popular, como "Pretty Fly (For A White
Guy)" e "Why Don't You Get A
Job?", sentiram que poderiam voltar a
estourar nas proporções anteriores?
Dexter:
(Risos) Acho que ninguém imaginava que fosse
acontecer de novo. mas, claro, entramos no
estúdio decididos a gravar as melhores canções
que tínhamos, da melhor forma, sem deixar de
criar. A coisa precisa ter graça pra nós, antes
de qualquer coisa.
Você tem sido apontado
como um bom compositor pop. Como integrante de um
grupo sempre ligado ao punk rock, considera isso
um elogio ou um...
Dexter:
(Interrompendo) Um insulto! (risos)
Não, não. Estou brincando. Qualquer coisa
pessoa normal gosta de ouvir coisas assim. Mas a
palavra pop ainda hoje tem uma carga negativa.
Ela foi usada para diminuir o trabalho dos
Beatles nos anos 60 e hoje, pelo menos nos EUA,
é associada a grupos como o N'Sync.
"Why Don't You
Get A Job?" rendeu comparações com os
Beatles, por causa da sua semelhança melódica
com "Ob-la-di, Ob-la-da"...
Dexter:
Isso é legal, mas é só um aspecto da música.
A gente usou vários elementos, steel drums
(aqueles latões usados na música de Trinidad
Tobago e de outras ilhas do Caribe), flauta,
metais, bateria eletrônica...
Por falar nisso, foi
mandado para as rádios americanas voltadas para
música negra um remix rhythm &blues de
"Pretty Fly (For A White Guy)". Ele fez
sucesso?
Dexter:
Para dizer a verdade, nem sei direito. Acho que
não. Isso não foi idéia nossa, a gravadora
propôs e nós achamos que seria uma boa idéia,
mais como uma provocação. Aí arranjamos dois
caras, acho que mexicanos, para trabalhar na
faixa. Sabe como é, esse negócio de botar um DJ
para mexer na sua música costuma dar em coisas
muito esquisitas e pouco legais.
Você acha que os sons
eletrônicos e os Djs vão mesmo ditar o futuro
da música?
Dexter: (Risos)
Não. Sempre vai haver gente fazendo músi
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ca com
guitarras, violão, instrumentos de verdade. A
música eletrônica é o futuro - da música
eletrônica.
No começo da carreira,
você costumava compor músicas políticas em
cima de temas específicos, como
"Tehran" (de 1989, um ano depois que os
EUA abateram por engano um avião comercial
iraniano com mais de 290 passageiros). Algum
assunto da política mundial o inspiraria
ultimamente?
Dexter:
Bem, eu poderia fazer uma música sobre... Não,
eu nem precisaria fazer. É só trocar
"Tehran" por "Kosovo".
(Cantando) "Ko-so-vo, Ko-so-vo,
Ko-so-vo". Ou essa ou "Bagdad". A
verdade é que provavelmente daqui a dez anos
ninguém vai se lembrar de Kosovo e a música
perde o sentido. E hoje minhas letras são mais
comentários sociais.
Os Beastie Boys, que
você costuma mencionar como um de seus grupos
favoritos, mudaram as letras de algumas músicas
mais antigas, revisando-as em versões
politicamente corretas. O que você acha disso?
Dexter:
Bom, eu não posso falar por eles. Mas se tem uma
coisa que não faríamos é mudar o que dizemos
nas múscias, por mais antigas e embaraçosas que
possam parecer. E politicamente correto,
concordamos todos, é algo que o Offspring jamais
vai ser, odeio isso. Sem ofensa aos Beastie Boys
(risos). Eu gosto deles e de muita coisa
hip-hop.
O Offspring andou sendo
saudado nos Estados Unidos e na Europa por ter
trazido de volta o rock ao topo das paradas de
sucesso. O que você acha disso?
Dexter: Bom,
eu não gosto muito dessa história, não. Mas
maior besteira ainda é achar que o rock está
ameaçado de extinção, que vai acabar ou está
esgotado, morto, reduzido a um pequeno gueto. O
rock'n'roll existe há mais de quarenta
anos...Pode não ser sempre o gênero mais
popular, pode vender menos, ser considerado menos
"in", mas vai continuar subindo e
descendo, sempre ali... O hip-hop realmente hoje
é muito forte nos Estados Unidos, mas existem
muitas bandas de rock boas e populares. Eu sou
fã de Foo Fighters, Rob Zombie e Korn. Essas
falsas polêmicas, categorizações, isso é papo
pra vender revista, ganhar audiência, isso tudo
é merda estratégica para alguém ganhar
dinheiro.
Se o Offspring fosse
colocado como banda que está levando punk a
alturas inéditas, faria diferença para você?
Dexter:
Não queremos ser vinculados a nenhuma bandeira,
seja do rock'n'roll ou do punk rock. Longe de mim
querer fazer a cabeça das pessoas. O legal do
sucesso de Americana é conseguir mostrar para um
público maior um tipo de música diferente.
Independentemente de
gêneros ou rótulos, vocês vieram com músicas
inteligentes e irônicas e ocuparam um espaço
que vinha sendo dominado por pop pré-fabricado e
rappers glamourizando a violência...
Dexter:
Muito obrigado pelo "inteligentes". É
isso aí (risos). Não precisa mais nem fazer a
pergunta (risos).
(Risos) Você disse
há alguns anos que, se tivesse que trabalhar num
emprego convencional durante muito tempo, iria
acabar se matando.
Dexter:
(Risos) É verdade, eu não me conformaria
passando anos num emprego das 9 às 5. Mas não
é bem assim, foi só força de expressão. iria
ser bem ruim, mas eu jamais me suicidaria.
O que você acha de
bandas punk como o Eve6, que assinam bons
contratos com gravadoras quando seus integrantes
ainda estão no ginásio?
Dexter:
Essas coisas são subjetivas, mas não dá pra
comparar com outras gerações que passaram pelos
perrengues que a gente conhece. É diferente,
não pode ser verdadeiro do mesmo jeito.
No diário da turnê
que está na Internet, Noodles recomenda bastante
a fita demo da banda Go, em que Brett (Gurewitz,
ex-guitarrista do Bad Religion, dono da Epitaph e
ex-inimigo da banda) toca...
Dexter:
Ah, sim, você quer dizer a banda de Jack Grisham
(ex-TSOL, banda pioneira do punk californiano).
Olha, para mim isso é história antiga, são
águas passadas. Se ele tem algum problema com a
gente, não importa. Somos felizes hoje,
esquecemos tudo e queremos que Brett também seja
feliz.
Como andam as
relações de vocês com o brasileiro Morris
Albert, autor de "Feelings"?
Dexter:
Ele processou a gente. Ou melhor, ele pediu uma
grana, tivemos de fazer uma acordo com ele.
Quanto ele pediu?
Dexter:
Oh, deus! Não sei dizer... Sei que era uma grana
violenta. Ele já iria receber pela regravação,
mas quis complicar. Prefiro nem me envolver, para
não desenvolver sentimentos de ódio por Morris
Albert (risos).
Existe alguma chance de
essa versão ganhar um videoclipe?
Dexter:
Puxa, eu adoraria, mas acho que só se for um
vídeo caseiro (risos). Um clipe oficial é
impossível. Essa música jamais seria escolhida
para single. Os radialistas daqui não têm
capacidade para entender a ironia, nunca tocariam
uma música com tanto "ódio" na letra.
Mesmo sendo um "ódio" com
"Feelings" (sentimentos).
Você tem 32 anos e
é pai de família, Como você compensa a
ausência durante as turnês?
Dexter:
Sempre esquematizamos tudo no sentido de não
passar mais de três semanas longe de casa, Às
vezes a coisa passa um pouco disso, mas procuro
ter uma convivência intensa e valorizar os
momentos com minha filha de 12 anos.
E qual é o tipo de
música que ela gosta de ouvir?
Dexter: (Risos)
Backstreet Boys. Parece piada, mas não é.
É por isso que
você odeia tanto os Backstreet Boys (nos shows,
Dexter costuma insuflar platérias proclamando
seu desapreço pelo grupo)?
Dexter:
(Risos) Eu tenho de ouvir essas coisas em casa
(risos). Mas na verdade eu não odeio os
Backstreet Boys. Eles até que são bonitinhos
(risos).
Como foi a sessão de
fotos na Trafalgar Square, em Londres (feita
originalmente para o jornal Melody Maker)? É
verdade que os pombos fizeram cocô em um
integrante da banda?
Dexter:
(Risos) Sim, a vítima foi o Ron (Welty,
baterista). Foi engraçado, mas estava muito frio
e eu não gosto muito de sessões de fotos.
Mas você fez um
ensaio há pouco tempo para a capa da revista
americana Spin. Com produção de moda, cabelo e
tudo...
Dexter:
Cabelo, não! Eu só taquei um pouco de gel.
Aliás, eu não gostei nada do fundo rosa que
colocaram atrás de mim... A cor foi mudada
depois e já me sacanearam muito por causa disso
(risos).
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